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18
novembro
2016
Slow food lista alimentos em extinção
reprodução Slow Food

Fundada por Carlo Petrini, a Slow Food é uma associação internacional sem fins lucrativos, iniciada como movimento, em 1986, e transformada em associação, 3 anos depois. 
Atualmente, conta com mais de 100.000 membros e tem escritórios na Itália, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, além de apoiadores em 150 países.
O princípio básico do movimento é o direito ao prazer da alimentação, utilizando-se produtos artesanais de qualidade especial, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto os produtores.

"A Slow Food opõe-se à tendência de padronização do alimento no mundo, e defende a necessidade de que os consumidores estejam bem informados, tornando-se co-produtores. É inútil forçar os ritmos da vida. A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas."
Carlo Petrini, fundador do Slow Food

Defendem-se a biodiversidade alimentar e as tradições gastronômicas em todo o mundo, com o intuito de promover um modelo sustentável de agricultura que respeita o meio ambiente, a identidade cultural e o bem-estar animal, além de apoiar as demandas de soberania alimentar, ou os direitos das comunidades de decidir o que cultivar, produzir e comer.

A partir desse foco, a Fundação Slow Food lançou em 1996 a Arca do Gosto, catálogo mundial que identifica, localiza, descreve e divulga sabores de produtos ameaçados de extinção, alguns deles muito esquecidos ou pouco conhecidos, mas ainda vivos, com potenciais produtivos e comerciais. O objetivo é documentar produtos gastronômicos especiais, que estão em risco de desaparecer. Desde o início da iniciativa, foram catalogados mais de 1.000 produtos de dezenas de países. 

Além dos produtos agrícolas, há outros recursos alimentícios em extinção, como peixes e queijos - estima-se que 80% dos recursos pesqueiros estejam ameaçados pela pesca excessiva no país, por exemplo. Um dos animais que correm risco de entrar na lista da Arca é a lagosta, pois é pescada no verão, justamente durante sua fase de desova.
Na lista dos pescados em risco estão o aratu (Goniopsis cruentata), típico dos mangues do estado de Sergipe; o berbigão (Anomalocardia brasiliana), abundante no litoral de Santa Catarina; a ostra de Cananeia (Crassostrea brasiliana), em São Paulo, e o pirarucu (Arapaima gigas), originário da bacia hidrográfica amazônica.

Somente no Brasil, há mais de 100 produtos ameaçados de extinção listados na Arca do Gosto. Veja a lista completa

Para que um produto entre na lista dos "ameaçados" há alguns critérios básicos, como as qualidades gastronômicas especiais, a ligação com a geografia local, a produção artesanal, a ênfase na sustentabilidade e o risco de extinção.

Segundo o biólogo Gleen Makuta, da Slow Food Brasil, o desaparecimento gradual desses ingredientes deve-se à padronização da alimentação.
"Cerca de 90% da dieta do mundo todo está pautada em vinte ingredientes, sendo os três maiores o milho, o arroz e a batata. Então são alimentos que estão muito difundidos, produzidos em escala massiva, e isso faz com que outros ingredientes percam o valor econômico e não consigam acessar o mercado", afirma.
"Isso faz com que todo o conhecimento atrelado a esses ingredientes vá se perdendo. É uma extinção tanto biológica como cultural."

Apesar do risco de desaparecimento, todos os ingredientes da lista ainda se encontram vivos, com potencial produtivo e comercial. Mas poucos chegam à mesa dos brasileiros.

Contribuição dos chefs
Pensando em levar esses alimentos à mesa dos brasileiros, a chef de cozinha Claudia Mattos fundou, com outros chefs, a Aliança dos Cozinheiros para o Brasil, rede que trabalha com ingredientes locais, elaborando pratos e receitas com alimentos de cada região.

"O Brasil consome e conhece muita coisa de fora - funghi seco e caviar, por exemplo -, mas não conhece produtos nossos, como cambuci, baru, entre tantos outros."
O grupo promove eventos como o Festival Arca do Gosto, que reúne nomes da gastronomia para elaborar pratos e receitas com esses alimentos.

"É muito fácil fazer mousse com laranja ou morango porque é conhecido, e o resultado muito tranquilo, mas criar um prato com ingredientes que você não sabe nem como se comportam, se tem que deixar de molho, se tem que assar, cozinhar, se faz ele doce ou salgado é desafiador e trabalhamos na base da experimentação", conta. "Há pouco tempo, ninguém conhecia cambuci, taioba, ora-pro-nobis, e hoje vários restaurantes já usam esses ingredientes.”

Conhece algum ingrediente com risco de extinção na sua região? Você pode contribuir para a Arca do Gosto. Acesse http://www.slowfoodbrasil.com/arca-do-gosto/indique-um-produto

Referências
http://www.fondazioneslowfood.com/en/what-we-do/the-ark-of-taste/nominations-from-around-the-world/nominate-a-product/ficha-de-candidatura-para-a-arca-do-gosto/
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37758000
http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2013/junho/lista-mostra-24-alimentos-brasileiros-em-risco-de?tag=biodiversidade
http://www.slowfoodbrasil.com/arca-do-gosto/produtos-do-brasil
http://comendocomosolhos.com/sete-alimentos-ameacados-de-extincao/
http://www.slowfoodbrasil.com

13
novembro
2016
O planejamento urbano, o transporte e a saúde

O que o planejamento urbano tem que ver, diretamente, com a saúde da população?

Esse é o alvo do projeto de doutorado, de autoria de Thiago Hérick de Sá, pesquisador do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP).  Ele participou de um estudo internacional realizado por pesquisadores da Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, China e Índia,  que afirma que a implantação de um modelo de cidade compacta, possível em São Paulo  – onde as distâncias entre os locais de moradia, trabalho, comércio e serviços fossem mais curtas e as áreas urbanas tivessem maior densidade populacional e uso mais diversificado – poderia resultar em um aumento de 24,1% na atividade física dos paulistanos relacionada ao transporte, como caminhada e ciclismo.

Esse aumento no deslocamento ativo pode levar a uma diminuição de 4,9% na emissão de material particulado fino na atmosfera pelos veículos automotores e, consequentemente, a uma queda de 7% no número de casos de doenças cardiovasculares e de 5% no de diabetes tipo 2.

O estudo e a promoção do deslocamento ativo vêm crescendo mundialmente, dada sua estreita relação com problemas de saúde pública da atualidade, como a obesidade e o aquecimento global, e seu potencial de contribuir positivamente em áreas cruciais, como transporte, saúde e meio ambiente. O objetivo do projeto de doutorado, que teve apoio da Fapesp, era investigar a frequência, a distribuição e a variação temporal do deslocamento ativo no Brasil, bem como os efeitos dessa prática sobre condições de saúde da população.

Os resultados do estudo internacional foram publicados em uma série especial da revista Lancet sobre planejamento urbano, transporte e saúde, lançada durante a Assembleia Geral da ONU, no final de setembro, em Nova York, Estados Unidos.
“O objetivo da série foi quantificar os impactos da adoção de um modelo de cidade mais compacta e de um sistema de transporte mais sustentável sobre a saúde da população de cidades de diferentes regiões do mundo”, disse Sá à Agência FAPESP.

Além dos resultados para a saúde individual, haveria outros impactos positivos com as mudanças no uso da terra e no sistema de transporte, como a diminuição de mortes e lesões causadas por acidentes de trânsito.

Com base nessas estimativas, um modelo de cidade compacta deve contemplar 30% a mais de densidade e a diversidade do uso da terra e a redução da distância média dos trajetos também de 30%, com o objetivo de estimular a substituição do uso de automóveis pelo transporte público, bicicleta e caminhada nos deslocamentos na cidade. Além disso, os pesquisadores também substituíram, no modelo, 10% do transporte por veículos automotivos por deslocamento ativo (caminhada ou bicicleta).

Aplicou-se esse modelo nas cidades de Melbourne (Austrália), Londres (Inglaterra), Boston (EUA), São Paulo, Copenhagen (Dinamarca) e Délhi (Índia), com o intuito de projetar os efeitos dessas intervenções no uso da terra, no planejamento urbano e no padrão de transporte sobre a saúde da população, em cidades que apresentam diferentes níveis de desenvolvimento socioeconômico e de motorização.

A cidade de Melbourne, por exemplo, apresenta alta renda e é extremamente motorizada. Já as cidades de Boston, Londres e Copenhagen têm alta renda e são moderadamente motorizadas. São Paulo, por sua vez, apresenta renda média e é moderadamente motorizada. E Délhi possui renda baixa e tem se motorizado rapidamente, segundo os pesquisadores.

De acordo com os resultados dessas projeções, a implantação de tal modelo resultaria em um aumento da atividade física relacionada – como caminhada e ciclismo – em todas as cidades. Porém Sá explica que essa implantação depende da existência de estruturas dedicadas à caminhada e às bicicletas, como boas calçadas e ciclovias.

Em Melbourne, haveria uma redução estimada de 19% nos casos de doenças cardiovasculares e de 14% nos de diabetes tipo 2. Em Londres, uma diminuição de 13% na incidência de doenças cardiovasculares e de 7% na de diabetes tipo 2. Em Boston, essas reduções foram de 15% e 11%, respectivamente. E, em São Paulo, a queda foi de 7% no número de casos de doenças cardiovasculares e de 5% na ocorrência de diabetes tipo 2 – índices semelhantes aos de Copenhagen.

Além disso, todas as cidades participantes do estudo obtiveram redução da poluição do ar pelas emissões de partículas finas pelos veículos automotivos.  Embora a diminuição das emissões tenha sido maior em cidades mais motorizadas - como Melbourne (-12,4%), Boston (-11,8%), Londres (-10,1%) e Copenhagen (-10,9%) -, São Paulo (-4,9%) e Délhi (-3,2%) também registraram queda em menor grau, indicaram os pesquisadores.

“Grosso modo, as conclusões do estudo sobre as outras cidades também valem para São Paulo”, avaliou Sá. “Se tivéssemos uma cidade mais adensada, onde as pessoas morassem mais próximas uma das outras, com um uso de solo mais diversificado e um sistema de mobilidade mais sustentável, isso resultaria em grandes ganhos para a saúde da população”, estimou.

Deslocamento ativo
Em outro estudo recente, a pesquisa indagou se os riscos da exposição à poluição do ar poderiam anular os benefícios à saúde proporcionados pela atividade física durante deslocamentos ativos nas cidades.

Eles compararam os riscos da poluição do ar à saúde com os benefícios relacionados à atividade física durante deslocamentos ativos, usando uma ampla gama de possíveis concentrações de poluição do ar e de duração das viagens, a fim de estimar em que momento os prejuízos à saúde causados pela exposição à poluição do ar poderiam superar os benefícios.

Os resultados do estudo, publicado na revista Preventive Medicine, indicaram que os benefícios de caminhar e pedalar para se deslocar superam os malefícios da exposição à poluição do ar, na maioria das cidades no mundo, mesmo com muitas horas de deslocamento e em níveis elevados de poluição.

Em cidades como São Paulo, os malefícios seriam superados apenas após sete horas de pedalada ou 16 horas de caminhada por dia, apontaram os pesquisadores. “Esses percursos só poderiam ser feitos hipoteticamente por uma quantidade muito pequena de pessoas, como entregadores de postagens e encomendas”, avaliou Sá.
O artigo “Land use, transport, and population health: estimating the health benefits of compact cities” (doi: 10.1016/S0140-6736(16)30067-8), de Sá e outros, foi publicado na série especial da revista Lancet sobre planejamento urbano, transporte e saúde e pode ser lido integralmente em www.thelancet.com/series/urban-design.

Referências
http://agencia.fapesp.br/estudo_estima_impactos_do_planejamento_urbano_na_saude/24124/
http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/134802/como-estamos-indo-o-estudo-do-deslocamento-ativo-no-brasil/
http://www.thelancet.com/series/urban-design

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