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7
março
2017
As mulheres e a ciência
foto divulgação
Um caso raro, mulher e negra, a engenheira Nadia Ayad, brasileira, venceu concurso mundial por sua pesquisa com carbono: http://www.geledes.org.br/engenheira-nadia-ayad-brasileira-vence-concurso-mundi

Há controvérsias sobre o porquê do dia 8 de março ser considerado o Dia Internacional da Mulher, mas provavelmente por ser a data de um incêndio que aconteceu em uma fábrica de tecidos em Nova York, no ano de 1857, que teria matado mais de 120 funcionárias, acontecimento que deu início a movimentos de luta pelos direitos femininos. 
Já abordamos esse assunto em publicações de março de 2015 e de 2016, que podem ser consultadas nos links:
http://itaca.com.br/noticias/post/1852
http://itaca.com.br/noticias/post/2421

Podemos também listar uma grande quantidade de mulheres que foram e ainda são muito importantes em diversas áreas do conhecimento, que venceram barreiras sociais muito fortes para competir no mercado de trabalho com os homens, além de receberem menores salários, mesmo depois de conquistar os mesmos postos de trabalho.

Nesta matéria, optamos por abordar a questão de gênero nas ciências que, de acordo com recentes pesquisas, tem origem já na infância.

A discriminação da mulher na formação científica

O jornal El País, em sua edição de 2 de fevereiro de 2017 (http://bit.ly/2lAmbjY),  cita pesquisas que investigam o porquê da pequena participação das mulheres no ambiente da ciência.

Um artigo da Revista Nature examina a presença das mulheres como avaliadoras dos trabalhos de seus colegas, uma das bases do sistema científico e acadêmico, que permite que as revistas científicas analisem a qualidade dos artigos submetidos para publicação. Através dessa análise, os avaliadores podem também melhorar em sua própria área de conhecimento e fortalecer vínculos com outros pesquisadores.
Em pesquisa da União Americana de Geofísica (AGU, na sigla em inglês), constata-se que, entre 2012 e 2015, a presença feminina entre os revisores foi de 20%, porcentagem inferior aos 27% de mulheres que conseguem ter aceitos artigos em que aparecem como primeiras autoras, e abaixo dos 28% de membros femininos da AGU. 
Em contraste, os autores da análise, Jory Lerback e Brooks Hanson, mostram que a porcentagem de artigos aprovados para publicação apresentados por mulheres é ligeiramente maior que a de homens (61% a 57%). Uma das possíveis interpretações para esses resultados, talvez a mais plausível, é que elas preparem melhor o envio de seus trabalhos já esperando encontrar mais dificuldades, coincidindo com outros estudos que indicam que as pessoas que esperam mais obstáculos dedicam mais esforço à preparação. Isso explicaria também, pelo menos em parte, por que as mulheres enviam menos artigos para publicação do que os homens. “Um processo de estudo duplo-cego poderia lançar mais luz sobre esses fatores”, propõem os autores do artigo na Nature.
Um estudo  liderado por Corinne A. Moss-Racusin, psicóloga do Skidmore College (Estados Unidos), sugere que os professores universitários, independentemente de seu gênero, avaliam de maneira mais favorável uma candidatura para diretor de laboratório se o candidato for um homem. Outras análises semelhantes observaram como candidaturas idênticas para postos fixos na universidade têm mais possibilidades de sucesso se o suposto aspirante for homem, mesmo que a seleção seja feita por indivíduos que dizem valorizar a igualdade e se consideram objetivos.

Outro artigo publicado na revista da Nacional Academy of Science dos Estados Unidos (nas.org), em 2015, afirma que apesar de haver uma grande quantidade de dados que refletem a desvantagem das mulheres nas carreiras ligadas à ciência e à engenharia,  esses dados são avaliados de forma desigual, dependendo de quem os avalia.  Os homens – principalmente em posições de poder dentro do mundo acadêmico – são mais reticentes em aceitar o valor dos dados apresentados, o que dificulta que essas desigualdades de gênero na ciência sejam reconhecidas e comecem a ser combatidas.

A discriminação aparece na infância

Em um outro estudo,  apresentado na revista Science, foi perguntado a meninos e meninas se acreditavam que uma pessoa descrita para eles como especialmente inteligente era de seu sexo ou do oposto. As crianças que tinham 5 anos não viam diferenças, mas a partir dos 6 ou 7 anos, a probabilidade de que meninas considerem a pessoa brilhante como sendo de seu sexo cai.

No mesmo estudo, percebeu-se que meninas mais velhas, a partir dos 6 anos, têm menos interesse em jogos que, segundo a descrição, teriam sido planejados para crianças muito inteligentes. Mas, o interesse não variava entre os gêneros quando o jogo era apresentado como dirigido a crianças muito persistentes. 

Os responsáveis pelo estudo consideram que essas ideias sobre gênero e inteligência, que aparecem em uma fase inicial da infância, podem afastar as meninas das carreiras em ciência e engenharia. Um dado interessante é que tanto meninos como meninas reconhecem que elas tiram melhores notas, o que sugere que não associam essas notas com brilhantismo. 
Agora, os autores querem entender as origens dessas diferenças de percepção.

A contribuição histórica feminina nas ciências

A contribuição feminina para a ciência começa muito antes de existir o Dia da Mulher e dos movimentos de revolução feminista. Reproduzimos abaixo uma lista da revista Galileu, apontando algumas mulheres que deixaram sua marca na evolução da sociedade: 
Hildegard de Bingen (1098-1179) 
Durante a idade média, mulheres se instruíram em conventos e foi como abadessa que Hildegard de Bingen (ou santa Hildegard, para a igreja anglicana) escreveu livros sobre botânica e medicina. Suas habilidades de médica eram conhecidas e frequentemente confundidas com milagres. Seus feitos se tornaram tão famosos que um asteroide foi batizado em sua homenagem: o 898 Hildegard. 
Maria Gaetana Agnesi (1718-1799) 
A matemática espanhola descobriu uma solução para equações que, até hoje, é usada. É ela a autora do primeiro livro de álgebra escrito por uma mulher. Também foi a primeira a ser convidada para ser professora de matemática em uma universidade. 
Ada Lovelace (1815 -1852) 
Ada é creditada como a primeira programadora do mundo por sua pesquisa em motores analíticos – a ferramenta que baseou a invenção dos primeiros computadores. Suas observações sobre os motores são os primeiros algoritmos conhecidos. 
Marie Curie (1867 – 1934) 
Esta lista não estaria completa sem a “mãe da Física Moderna”. Curie é famosa por sua pesquisa pioneira sobre a radioatividade, pela descoberta dos elementos polônio e rádio e por conseguir isolar isótopos destes elementos. Foi a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o prêmio: a primeira vez em Química, em 1903, e a segunda em física, em 1911. 
Florence Sabin (1871-1953) 
Florence é conhecida como “a primeira-dama da ciência americana” – ela estudou os sistemas linfático e imunológico do corpo humano. Tornou-se a primeira mulher a ganhar uma cadeira na Academia Nacional de Ciência dos EUA e, além disso, militava pelo direito de igualdade das mulheres. 
Virginia Apgar (1909 -1974) 
É ela a criadora da Escala de Apgar, exame que avalia recém-nascidos em seus primeiros momentos de vida, e que, desde então, diminuiu as taxas de mortalidade infantil. Especialista em anestesia, ela também descobriu que algumas substâncias usadas como anestésico durante o parto acabavam prejudicando o bebê. 
Nise da Silveira (1905- 1999) 
Psiquiatra renomada, a brasileira foi aluna de Carl Jung. Lutou contra métodos de tratamento comuns na sua época, como terapias agressivas de choque, confinamento e lobotomia. Durante a Intentona Comunista, em 1936, foi presa por possuir livros marxistas e acabou conhecendo o escritor Graciliano Ramos, que a transformou em uma personagem de seu livro “Memórias do Cárcere”. 
Gertrude Bell Elion (1918 -1999) 
A americana criou medicações para suavizar sintomas de doenças como Aids, leucemia e herpes, usando métodos inovadores de pesquisa – seus remédios matavam ou inibiam a produção de patógenos, sem causar danos às células contaminadas. Ganhou o prêmio Nobel de medicina em 1988. 
Johanna Dobereiner (1924-2000) 
A agrônoma realizou pesquisas fundamentais para que o Brasil se tornasse um grande produtor de soja, além de ter desenvolvido o Proalcool. Estima-se que suas pesquisas fazem com que o nosso país economizem 1,5bilhões de dólares todos os anos, que seriam gastos em fertilizantes. Seu estudo sobre fixação de oxigênio permitiu que mais pessoas tivessem acesso a alimentos baratos e lhe rendeu uma indicação para o Nobel de Química em 1997. 

Referências e assuntos relacionados
https://asminanahistoria.wordpress.com/2016/10/10/15-mulheres-brasileiras-que-deveriamos-ter-conhecido-na-escola/
http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI298221-17770,00-GRANDES+MULHERES+DA+CIENCIA.html
https://www.buzzfeed.com/alexandreorrico/nomes-mulheres-brasileiras-que-fizeram-historia?utm_term=.jiLQoa1jO#.ywrrzj5l6
http://mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/20-mulheres-brasileiras-que-fizeram-historia/
http://www.revistaforum.com.br/digital/167/18-mulheres-brasileiras-que-fizeram-diferenca-parte-1/
https://www.bio.fiocruz.br/index.php/noticias/407-mulheres-brasileiras
http://cnpq.br/pioneiras-da-ciencia-do-brasil#void
LEIA MAIS:
Homens ganharam 97% dos Nobel de ciência desde 1901
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/14/ciencia/1476437077_380406.html?rel=ma
Quem são as cientistas negras brasileiras?
http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/ciencia/1487948035_323512.html

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